Coisas de Noel agora são Nossas

Patrícia Barros, Bruno Anacleto, Keity, Crislaine, Giovani Falcão, Jonathan, Miguel, Hebert -


Herinque Cazes fala sobre sua dedicação a Noel Rosa


Henrique Cazes é carioca, nascido em 1959. Integrou o conjunto “Coisas Nossas” em 1976, desde sua fundação, e sempre desenvolveu um trabalho ligado ao samba e principalmente ao choro. O músico e pesquisador começou a tocar violão na infância, quando se especializou no cavaquinho. Diretor da Orquestra Pixinguinha no início dos anos 90, Cazes e Cristina Buarque gravaram o disco "Sem tostão... a crise não é boato", inteiramente dedicado à obra de Noel Rosa. Além disso, já publicou vários livros, entre eles: "Escola moderna do cavaquinho" e "Choro - do quintal ao Municipal”.

Para entender melhor toda a intimidade com a obra de Noel Rosa e seus ensinamentos, o Blog Feitiço de Noel foi procurar com Henrique Cazes, qual seria a maior mensagem que o grande poeta da Vila deixou para encantar seus seguidores. Além de contar fatos e histórias sobre diversos trabalhos do “Coisas Nossas” ligados ao sambista.

Feitiço do Noel - O início da sua carreira se deu com o grupo instrumental e vocal “Coisas Nossas”, que além de levar o nome de uma das músicas de Noel Rosa, tem seu trabalho dedicado à obra Noelesca. Em 1978, o grupo fez sucesso com o show intitulado “Sempre Livre” e no ano de 83 lançaram o disco “Noel Rosa, Inédito e Desconhecido”. Já em 1987 viajaram por diversas capitais brasileiras realizando o show “Uma Rosa para Noel”. Como surgiu a idéia de formar um grupo formado por amantes das obras de Noel? Como era a repercussão do “Coisas Nossas” naquela época?

Henrique Cazes - O Conjunto Coisas Nossas foi uma grande escola, de música, palco e produção. Nós fazíamos tudo, desde tocar, cantar, compor e até carregar e operar a aparelhagem de som. Noel foi nosso ponto de partida em 1976, com um ciclo de 80 músicos em 5 semanas de show, onde aconteciam mudanças de formação a cada semana. Também pesquisamos o repertório de Carnaval (especialmente dos anos 1920). Tocamos com Marília Baptista, Aracy de Almeida, Marlene, Emilinha, Moreira da Silva e Eduardo Dusek. Uma turma bem variada.


Feitiço do Noel - O que aconteceu com o grupo depois? Como está a atual situação dos músicos que integraram essa iniciativa? Estão fazendo parte de algum projeto? Algum ligado ao Noel?

Henrique Cazes - Apesar de termos trabalhado muito o resultado profissional foi muito fraco e os integrantes foram aos poucos assumindo outros compromissos. Eu, o Beto Cazes e o Dazinho (Edgard Gonçalves) fomos participar da Camerata Carioca, que foi um grupo instrumental criado em 1979 por ocasião do evento "Tributo a Jacob do Bandolim". O Aloísio Didier (Luíta) foi trabalhar na TV Globo. O irmão dele, Carlos (Caola) deixou a música e foi para o mercado financeiro, já o Oscar Bolão continuou tocando com todo mundo. O conjunto nunca acabou, só fica hibernando. Outra coisa importante é que no ano que vem, quando será o centenário do Noel, vamos remontar a trupe.


Feitiço do Noel - Noel Rosa deixou mais de 200 canções, contando inúmeros clássicos. Suas músicas faziam relatos do cotidiano com elementos socioculturais característicos do Brasil da década de 30. Músicas criticando a avareza, além de diversas composições sobre o bairro da Penha (bairro mais cantado pelo artista). Outra curiosidade é a famosa polêmica entre ele e Wilson Batista. Como você interpreta o Noel compositor? A MPB mantém esse “Estilo Noel Rosa”, que fala do homem comum na sociedade?

Henrique Cazes - Noel foi pioneiro em muitos aspectos. Ele subiu os morros do Rio e fez parcerias com os compositores dessas comunidades. Inventou formas de samba e mostrou caminhos que outros seguiram nas décadas seguintes. Ele foi diferente porque era um gênio com atitude. Não há dúvida, que a partir dele o jeito carioca de falar tornou-se dominante na MPB. Sua influência é notável.


Feitiço do Noel - O disco “Sem tostão...a vida não é um boato” foi uma parceria sua com a cantora Cristina Buarque; um álbum inteiramente dedicado a obra de Noel e teve sua gravação no boteco BipBip. A gravação foi descontraída e muito elogiada pelo público. Nela você contou alguns casos bem-humorados s obre Noel. Você poderia contar algum? Qual seu preferido?

Henrique Cazes - Gosto muito da história do malhado: o seresteiro obtuso. Noel Rosa gostava das madrugadas e quando não tinha carro, escalava motoristas de táxis para acompanhá-lo no périplo noturno. Um desses motoristas tinha o apelido de Malhado, em função do vitiligo. Ele possuía uma voz possante que gostava de exibir em serenatas e vivia pedindo a Noel uma música em que pudesse exibir seus dotes vocais. Noel percebeu um detalhe interessante, Malhado cantava valsa e canções com palavras difíceis que ele não conhecia o significado, diante disso resolveu compor uma canção para o amigo motorista.
Depois de pronta a composição, Noel ensinou versos e melodia para Malhado e combinou de fazerem a estréia da obra numa serenata para as filhas de um coronel de Vila Isabel. Chegando na frente do sobrado do coronel, Noel disse que ficaria do outro lado da rua para dar o destaque que a voz de Malhado merecia. Feriu o tom e o cantor atacou com seguinte verso:

“Saí da tua alcova,
Com o prepúcio dolorido
Deixando seu clitóris gotejante
De volúpia emurchecido
Porém o gonococos da paixão
Aumentou minha tensão”

O coronel levantou atirando. Malhado correu para a esquina onde Noel já o esperava. Lívido parou diante do “Poeta da Vila” que o consolou dizendo: “Isso é pra você ver, Malhado, o que é a falta de sensibilidade dessa gente”.


Feitiço do Noel - No aniversário de 70 nos da morte de Noel foi montado pela Prefeitura um grande palco em frente ao famoso bar “Petisco da Vila”. Na época a TV Globo até gravou alguns trechos para o jornal local. A festa teve você como mestre de cerimônias, que tecia comentários sobre a vida, obra e curiosidades de Noel Rosa antes de cada música. Conte como foi esse evento.

Henrique Cazes - Foi ótimo. Noel em Vila Isabel dá sempre certo. Fez uma noite bonita e tivemos uma média de 5.000 pessoas na rua, na maior tranqüilidade, tipo cadeira na calçada. Pensando nisso, o Martinho da Vila me chamou para fazermos uma noite de Noel na quadra da escola, em 19 de dezembro. O que demonstra que o bairro nunca esqueceu seu poeta e sua música está escrita nas calçadas do Boulevard.

Feitiço do Noel - Quando Noel iria completar 90 anos de idade você e Cristina Buarque lançaram o segundo disco em homenagem a Noel, chamado de “Sem Tostão 2... a crise continua”. Em 2007, houve um grande evento na Vila Isabel em homenagem aos 70 anos da morte de Noel. No ano que vem com o centenário dele, você tem algum projeto em vista?

Henrique Cazes – Sim. Tenho muitos projetos envolvendo a música em si que gostaria de realizar como espetáculos, regravações de parte da obra em homenagem a Noel, uma série de programas de rádio, um musical reunindo as três operetas radiofônicas entre outros. Tenho muita vontade de concretizar todos esses projetos, mas para que tudo isso aconteça vamos precisar de patrocínios e incentivos à cultura.

Feitiço do Noel - Hoje você é um músico consagrado, cavaquinista, violonista, arranjador e chorão. Comente um pouco da influência pessoal de Noel Rosa sobre suas obras e qual música do Noel você mais gosta?

Henrique Cazes - Foi por causa do Noel que me tornei músico profissional e não um futuro químico. Eu tinha apenas 17 anos quando mergulhei na obra dele. Influenciado por suas músicas e figura boemia entrei no grupo Coisas Nossas que, consequentemente, mudou a minha vida para sempre. O Jota Canalha - meu personagem “alterego” de humor – é um discípulo do Noel.

Feitiço do Noel - O que você destacaria na personalidade de Noel Rosa? Tem algo que te chama mais atenção?

Henrique Cazes - O que é mais inacreditável é que, com fama de preguiçoso, ele fez
tudo que fez e morreu com 26 anos. Ele era organizado internamente e externamente parecia um esculhambado.

Feitiço do Noel - É muito curioso que um homem com uma vida tão breve, tenha contribuído de forma tão enriquecedora para a música brasileira. Quais são os clássicos de Noel que de alguma forma pontuaram a vida dele?

Henrique Cazes - A música “Com que roupa” o deixou famoso. E outras como: “Feitiço da Vila” com seu amor pelo bairro, “Conversa de botequim” em crônica e um máximo, “Último desejo” um sofrimento barra pesada e “Pastorinhas” que no Carnaval seguinte a sua morte já anunciava que ele seria eterno.

Feitiço do Noel - Noel Rosa participou de um grupo de samba denominado “Bando dos Tangarás”. O fato de o sambista ter feito parte do grupo contribuiu para surgir a ideia do grupo Coisas Nossas? Existe alguma semelhança entre os dois grupos?

Henrique Cazes - Apesar do humor como ponto em comum, acho que os grupos eram bem
diferentes. Os Tangarás eram amadores e até se escondiam atrás de pseudônimos. O sucesso para eles foi lucro líquido. O “Coisas Nossas” nasceu para ser profissional, e pagou uma conta alta por isso.

Noel Rosa

Noel Rosa foi um marco na música popular brasileira. Um dos responsáveis pelo samba moderno e por ter trazido o samba as rádios, além de aproximar o samba do morro com o asfalto. Suas letras são atuais até hoje, assim como os textos de Shakespeare, pois tratam de temas inerentes ao ser humano. Apesar disso, o cantor, compositor, bandolinista, violonista ainda é pouco conhecido pela grande maioria das pessoas. Mesmo tendo vivido apenas 26 anos, o suficiente para deixar seu nome entre os maiores do samba carioca, Noel deixou mais de 200 composições gravadas. Entre elas inúmeros clássicos indiscutíveis como "Palpite Infeliz", "Feitiço da Vila", "Conversa de Botequim", "Último Desejo", "Silêncio de um Minuto", "Pastorinhas" e "Com Que Roupa?". Em 2010, se estivesse vivo, Noel Rosa completaria 100 anos. Para comemorar esta data decidimos fazer este blog em sua homenagem.

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