Obituário - Como a imprensa noticiou a morte de Noel Rosa

Vitor Costa e Luanda Melo -

Noel Rosa morreu no dia 4 de maio de 1937. No dia seguinte, os jornais da época deram o devido destaque a morte do homem franzino, frágil fisicamente, mas que se tornou forte e grandioso culturalmente por sua vasta produção de belas composições.

Noel morreu com 26 anos, mas mesmo com pouco tempo de vida, através das manchetes e alguns trechos de reportagens que aqui reproduzimos, conseguimos medir a profundidade do que representava o “poeta da Vila” no contexto da época. Enquanto alguns periódicos foram sucintos nas chamadas, alguns trouxeram já pela manchete a amplitude de Noel.


Reprodução de uma nota do Jornal do Brasil sobre a morte de Noel Rosa (fonte: Biblioteca Nacional)

Manchetes dos jornais – data: Quarta-feira, 05 de maio de 1937.


O Jornal - Falleceu O Compositor Noel Rosa - Era Autor De Numerosas Musicas Populares

Diário de Notícias - Falleceu Noel Rosa - O Conhecido Compositor Morreu Ouvindo Cantar Uma Musica De Sua Autoria

Diário Carioca - Noel Rosa - Falleceu Hontem O Maior Cantor Da Alma Carioca

Correio da Manhã - A Morte Prematura De Noel Rosa - Foi, Hontem, Sepultado, O Popular Cantor Do Radio

Diário da Noite - Morreu Cantando Noel Rosa A Figura Mais Popular Dos Nossos Compositores

A Noite - Morreu Noel Rosa

Abaixo, a transcrição da matéria do jornal “A Noite”:

Morreu Noel Rosa. A cidade chora, nesta noticia, o desapparecimento do expoente maximo do sambista carioca.
A letra era repleta de uma philosophia humana. Sentira a necessidade de ambientar a musica que vivia nos morros ao convivio da cidade. Fez letras onde o malandro e o jogo de chapinha não entravam. Traduzia a propria vida em ritmos e melodias.
É seu esse samba canção: "Naquelle tempo em que você era pobre / Eu vivia como nobre / A gastar meu vil metal / E, por minha vontade / Você foi para a cidade / Esquecendo a solidão / E a miseria daquelle barracão./ Tudo passou tão depressa, / Fiquei sem nada de meu / E esquecendo a promessa, / Você me esqueceu, / E partiu, com o primeiro que appareceu / Não querendo ser pobre como eu." Dizem que essa historia foi vivida.
O morro era para elle motivo de verdadeiras chronicas musicais. "Mangueira" é um exemplo disso.
Seu primeiro sucesso foi "Com Que Roupa". Nesse tempo, prosseguindo os estudos, elle ingressava na escola de Medicina. Em pouco tempo, porém, abandonava os estudos, dedicando-se, inteiramente, á arte que o empolgára. Venceu, em toda linha, plenamente, quer como autor quer como violonista. Costumava, constantemente, interpretar, frente ao microphone, suas producções. É enorme a sua bagagem musical.
Noel Rosa morreu, victimado por um collapso cardiaco, em sua residencia, á rua Theodoro da Silva. E - suprema ironia do destino!

Aqui, como “O Jornal” deu a morte de Noel:

Á meia-noite de hontem falleceu, nesta capital, em sua residencia, á rua Theodoro da Silva, 382, o compositor de sambas e marchas, Noel Rosa.
Era uma figura sympathica das rodas radiophonicas e dos nossos musicistas mais populares.
Muitas de suas producções como "Tarzan, O Filho do Alfaiate" e "Maria Fumaça", tiveram um exito extraordinario. Mas o seu samba que mais agradou, foi, sem duvida, "Palpite Infeliz". De alguns annos para cá, não havia Carnaval completo sem musica de Noel Rosa.
Encontrava-se elle enfermo ha varias semanas e os que o conheciam nada auguravam de bom, dado o seu physico franzino. Entretanto, ainda recentemente, concedeu uma alegre entrevista a uma de nossas revistas de radio, traçando então os seus planos para o futuro. Não quiz o destino que se justificasse o seu optimismo.
O enterro sae, ás 16 horas, de hoje, do referido endereço, para o cemiterio de S. Francisco de Assis.

Agora, como divulgou o “Diario de Notícias”:

Noel Rosa era um de nossos mais conhecidos compositores populares. Suas musicas nunca deixavam de alcançar sucesso nas temporadas carnavalescas.
Havia mezes vinha elle soffrendo de pertinaz molestia, que lhe tirava toda a alegria.
Hontem, á noite, em frente á sua residencia, á rua Theodoro da Silva, 382, em Villa Isabel, realizava-se uma festa familiar.
Os rapazes, que compunham a orquestra, resolveram prestar uma homenagem a Noel, cantando em voz alta, o samba-desafio, de sua autoria, intitulado "De Babado Sim..."
O compositor popular, que regressára havia tres dias, de Pirahy, onde fôra mudar de ares, ao ouvir a musica, teve um estremecimento e morreu, talvez de emoção.
O seu enterro será realizado hoje á tarde, sahindo o feretro do endereço acima.

Um verdadeiro artista se perpetualiza através de suas obras. Noel Rosa é um exemplo de um artista que mesmo sendo efêmero, se imortalizou pela magnitude de suas composições. Noel Rosa não morreu! Ele vive em cada calçada da 28 de setembro, em cada roda de samba e em cada mente que “saboreia” as suas músicas, cantadas até hoje em verso e prosa.

“Se alguma pessoa amiga pedir que você lhe diga
Se você me quer ou não, diga que você me adora
Que você lamenta e chora a nossa separação.”

Versos da música “Último desejo” de Noel Rosa

1910 - 1937

Noel Rosa

Noel Rosa foi um marco na música popular brasileira. Um dos responsáveis pelo samba moderno e por ter trazido o samba as rádios, além de aproximar o samba do morro com o asfalto. Suas letras são atuais até hoje, assim como os textos de Shakespeare, pois tratam de temas inerentes ao ser humano. Apesar disso, o cantor, compositor, bandolinista, violonista ainda é pouco conhecido pela grande maioria das pessoas. Mesmo tendo vivido apenas 26 anos, o suficiente para deixar seu nome entre os maiores do samba carioca, Noel deixou mais de 200 composições gravadas. Entre elas inúmeros clássicos indiscutíveis como "Palpite Infeliz", "Feitiço da Vila", "Conversa de Botequim", "Último Desejo", "Silêncio de um Minuto", "Pastorinhas" e "Com Que Roupa?". Em 2010, se estivesse vivo, Noel Rosa completaria 100 anos. Para comemorar esta data decidimos fazer este blog em sua homenagem.

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